Será que inovação é mesmo a prioridade?

Tweet Muitos de nós que trabalhamos com o setor público nos deparamos diariamente com a escassez, com a sensação de correr atrás do próprio rabo, e com o desafio de entregar até mesmo o básico “feijão com arroz”. Inovar, em um cenário assim, pode parecer um luxo. Sendo assim, não […]

Muitos de nós que trabalhamos com o setor público nos deparamos diariamente com a escassez, com a sensação de correr atrás do próprio rabo, e com o desafio de entregar até mesmo o básico “feijão com arroz”. Inovar, em um cenário assim, pode parecer um luxo. Sendo assim, não seria incompreensível (nem rara) a seguinte afirmação:

“Ora, mal e mal conseguimos entregar o que nos propomos, quanto mais ir além e inovar. Inovação é para o setor privado, é para empresas que têm verba de pesquisa e desenvolvimento, que têm fatias de mercado a conquistar.”

Porém, nada poderia estar mais longe da verdade. É justamente em um cenário de limitação de recursos e de demandas crescentes que a inovação se torna mais fundamental. Creio que é por isso que gostei tanto da exposição O Design da Favela, que ilustrou meu último post. Como li recentemente no “Manual para Jovens Sonhadores“, de Nathalie Trutmann “só a verdadeira necessidade gera a verdadeira criatividade”.

De fato, como nos lembra Christopher Pollitt na sua introdução ao livro “Innovation in the Public Sector” não há consenso sobre o que significa inovação, e podem existir diferentes tipos de inovação, desde melhorias contínuas até quebras radicais de paradigmas. Mas acredito que, no dia-a-dia, inovação significa melhorar como trabalhamos, e gerar pequenos “milagres” diários, ao entregar muito com poucos recursos.

E como criar um ambiente para inovação?

Temos toda a rede iGovSP dedicada a este tema, e claramente existem uma série de abordagens, ferramentas, perspectivas sobre e para a inovação.  Porém, se eu fosse começar por algum lugar na criação de uma cultura voltada à inovação, eu sugeriria revisar processos. Em todas as organizações que trabalhei pude observar um grande número de “inovações pedindo pra acontecer”. Isto é, medidas simples, que não precisam de muito esforço para serem postas em prática, mas de certa forma todos já se acostumaram com o jeito que as coisas estão e não há o impulso inicial para a mudança.

Na cara do gol - Crédito: akarkayu @flickr

 

Um exemplo, prosaico porém ilustrativo, inspirado neste post do finado “we love local government”:

Na Inglaterra muitos tomam seu chá acompanhado de leite. É comum que cada um traga para o escritório sua garrafinha de leite, ou que compartilhem as garrafinhas entre duas ou três pessoas. Isso faz com que coletivamente se pague mais caro pelo leite (já que o preço por litro em garrafas maiores é mais baixo), e o que é pior, se tome leite não tão fresco, que já está na geladeira há uns dias. É super comum abrir geladeiras em escritórios ingleses e encontrar um monte de garrafinhas de leite, muitas delas com data de validade já vencida há tempos. Taí uma inovação pedindo pra acontecer – por que não ter um acordo coletivo, em que todos que compartilham a mesma geladeira também compartilhem o leite, bem como a responsabilidade por comprá-lo? Tudo bem, sempre vai ter aquele fulano que precisa ter o leite só dele porque toma bem mais que os outros, ou aquele outro que só bebe leite de soja. Mas, para a grande maioria, seria uma inovação bem vinda.

Claro, o compartilhamento do leite está longe de ser prioridade pra qualquer organização. Mas há lições a serem tiradas aqui. Trata-se de um exemplo de solução simples, sem necessidade de grandes investimentos, onde uma alteração de processos traz benefícios para todos os envolvidos.

É fato que muitos processos, principalmente aqueles mais críticos para a organização, só podem ser alterados com autorização e apoio da alta direção. Mas deixo aqui esta reflexão para o novo ano: será que não existem atividades nas quais estamos diariamente envolvidos (no trabalho e fora dele) que poderiam ser melhoradas de uma maneira simples?

Boas festas!