Sala de aula invertida

Tweet Durante grande parte da minha experiência escolar convivi com a premissa de que os alunos são como copos vazios, dentro dos quais os professores despejam conhecimento. Aos estudantes cabe comparecer às aulas sem nenhuma expectativa, completamente passivos, e prontos para o que estiver na ordem do dia. Conforme esta […]

Durante grande parte da minha experiência escolar convivi com a premissa de que os alunos são como copos vazios, dentro dos quais os professores despejam conhecimento. Aos estudantes cabe comparecer às aulas sem nenhuma expectativa, completamente passivos, e prontos para o que estiver na ordem do dia. Conforme esta premissa, a avaliação do sucesso se dá através de provas e trabalhos, nos quais se testa o armazenamento das informações transmitidas.

Do ponto de vista dos estudantes, uma vez que começam o processo sem saber aonde querem chegar, como podem avaliar se atingiram seu objetivo? Talvez o critério seja que o professor os entretenha, os surpreenda, introduzindo assuntos do zero, como um mágico que tira de dentro da cartola um novo conteúdo, “eu vos apresento… a biologia molecular!”, para uma plateia de estudantes embasbacados, “oooooooohhhh!”.

Entretanto, parece que também não é isso que eles esperam, conforme depoimentos de alunos do ensino médio sobre suas frustrações com a escola. Nota-se nos relatos o desejo de serem incluídos ativamente na busca de conhecimento, e que seu aprendizado seja contextualizado.

 

A sala de aula invertida

Apesar de ser uma leiga no assunto, percebo que a pedagogia moderna aconselha que os alunos possam vivenciar e associar com a sua experiência os conteúdos que aprendem. O objetivo da escola em uma sociedade do conhecimento deve ser formar indivíduos com senso crítico elevado, que saibam filtrar grandes volumes de informação, processar o mais relevante e assimilar o necessário. O aluno, ao invés do professor, passa a ser o centro do processo de aprendizagem. Na proposta da sala de aula invertida o estudante faz suas pesquisas e obtém informações fora do horário de aula, e usa a escola como ambiente para tirar dúvidas, compartilhar experiências, apresentar resultados.

Invertida - Crédito: Moise Nicu @Flickr

Fazendo a transposição da teoria para prática, a inspiradora experiência da Escola da Ponte, em Portugal mostra excelentes resultados ao quebrar com o modelo tradicional. Lá não existem aulas, nem turmas, e a participação ativa de pais e alunos é privilegiada, inclusive na própria gestão da escola. A Escola da Ponte influenciou a concepção do projeto GENTE, lançado este ano pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, e foi também referência em São Paulo para a escola Desembargador Amorim Lima no Butantã.

A Lumiar, escola fundada pelo empresário Ricardo Semler, é outra que segue princípios semelhantes. Segundo Semler, ele percebeu a necessidade de investir em educação ao viver a dificuldade de encontrar no mercado profissionais aptos a tomar decisões, por terem sempre estudado em escolas que os diziam o que fazer.

Estas experiências têm em comum a visão do papel do educador como um facilitador de conhecimento, ao invés de alguém que simplesmente segue o currículo e os despeja nos estudantes. A implicação direta é a autonomia do aluno e o seu papel ativo na aprendizagem. Esta abordagem está alinhada também ao conceito de gestão do conhecimento, e à necessidade de aprendizado contínuo individual e organizacional.

 

Aplicando os conceitos em um curso de pós-graduação: preparação

A minha percepção sobre a necessidade de revisão do modelo tradicional de aulas expositivas, se junta ao meu entusiasmo com as “tecnologias de espaço aberto”  (que se traduzem, por exemplo, nas desconferências), e à minha preocupação em não causar a dolorosa “morte por PowerPoint”. Foi por isso que, ao receber o convite para lecionar a disciplina Governo Eletrônico no curso de MBATI-e da UFRJ quis testar uma abordagem diferente. Funcionou foi mais ou menos assim:

  1. Lista de temas

    Comecei com uma breve introdução expositiva, na qual eu apresentei a disciplina e o assunto governo eletrônico. Logo após foi a vez de cada um dos alunos dizerem que temas gostariam de aprendem dentro do guarda-chuva de governo eletrônico – na verdade, dentro do tema mais amplo de governo, no qual a tecnologia entraria como uma ferramenta de apoio.

  2. Neste momento alguns alunos disseram que por desconhecerem a disciplina, não saberiam qual o seu “cardápio”. Isto é, como sugerir algo para conhecer mais profundamente se não conheciam nada? Mas à medida que fomos conversando, os alunos foram lembrando-se de temas de seu interesse. Cada um teve a sua chance de opinar, e resumir em uma frase que assunto gostaria de aprender. Em uma turma com 60 alunos, claro que vários tiveram sugestões interessantes, e terminaram contagiando os colegas.
  3. Eu ia buscando facilitar e “arredondar” um pouco os temas, atribuindo títulos mais abrangentes. Por exemplo, um aluno disse que gostaria de pesquisar sobre o uso de câmeras de vigilância pelo governo e eu propus o título “TI na segurança pública”. Ao final também sugeri alguns dos meus temas de estimação, como governança e gestão de desempenho. Tivemos mais de 30 temas elencados, que um voluntário foi digitando em um documento projetado no telão. A lista ficou bastante rica e variada.
  4. Após esta etapa, revisamos todos os temas buscando similaridades e sinergias, e procurando agregar temas correlatos. Por exemplo, juntamos espionagem digital e privacidade online em um tema só. Neste ponto os alunos iam ajudando, e sugerindo alterações, inclusões, e de certa forma o debate já se iniciava.
  5. Concluída a lista de temas sugeridos, distribuí três post its por aluno, para que pudessem votar nos seus temas de mais interesse e elencamos os doze mais populares. Após a votação, montei a grade no quadro branco, para que os alunos pudessem escolher as sessões que gostariam de facilitar. Cada aluno escrevia em um post it o seu nome e o assunto sobre o qual iria pesquisar e o colava na seção correspondente na grade. Voilá! Estava pronta a ementa do curso.

    A ementa

A dinâmica das aulas

Inicialmente eu havia imaginado ter sessões paralelas, com dois debates acontecendo simultaneamente. Após a primeira sessão, entretanto, os alunos preferiram ter uma sessão de cada vez, para que pudessem participar de todas. De todos os modos, tínhamos quatro sessões (de aproximadamente 45 minutos cada) por aula, em um grande círculo.

Tive muita sorte de ter usado essa dinâmica com uma turma interessada, participativa, e concentrada. Os debates fluíram bem, e as questões mais importantes dentro de cada tema foram abordadas. Não tivemos oportunidade de discutir todos os assuntos em muita profundidade, porém houve amplitude e variedade, e creio que aproveitamos bem o tempo que dispúnhamos, principalmente tendo em vista a curta duração do curso (quatro aulas de três horas).

Avaliação e resultados

A avaliação do curso consistia de dois trabalhos. O primeiro era a facilitação de uma das sessões, durante a qual o aluno deveria alimentar o debate com base em pesquisa realizada por ele. O segundo era a montagem de uma página web com o conteúdo gerado durante a sessão, que deveria conter uma curadoria de artigos sobre o tema. Links para todos os trabalhos gerados durante o curso podem ser encontrados aqui: http://www.scoop.it/t/governo-eletronico

O saldo final da experiência com esta dinâmica foi positivo. Alguns dos pontos fortes foram a variedade de conteúdos trazida pelos facilitadores das sessões e os debates gerados por opiniões divergentes sobre os mesmos assuntos. Além disso, gostei principalmente de trazer à tona o conhecimento dos alunos, já que havia na turma verdadeiros especialistas em vários dos assuntos discutidos. Por exemplo, para o tema de TI na segurança pública tínhamos ninguém menos que o coronel responsável pelo Centro Integrado de Comando e Controle do Estado do Rio de Janeiro.

Sem dúvida seria possível aprimorar a abordagem, tornando-a mais fluida e reforçando os resultados atingidos. Também não digo que esta opção seja preferida por todos. Alguns alunos se sentem desconfortáveis com esta inversão, preferindo o modelo com o qual já estão acostumados. Porém vale o aprendizado de que dinâmicas menos tradicionais funcionam na prática, inclusive em uma pós-graduação, e de que construir um curso juntamente com os alunos é uma experiência enriquecedora para todos os envolvidos.