Ruas para pessoas

Uma cidade em que as bicicletas e pedestres têm a preferência sobre os carros é uma cidade melhor para se viver: menos poluída, mais segura, mais barata, mais saudável e mais democrática. Cidades que são amigáveis a bicicletas são mais agradáveis e mais condizentes com a escala humana. Há alguns...

Uma cidade em que as bicicletas e pedestres têm a preferência sobre os carros é uma cidade melhor para se viver: menos poluída, mais segura, mais barata, mais saudável e mais democrática. Cidades que são amigáveis a bicicletas são mais agradáveis e mais condizentes com a escala humana.

Há alguns meses publiquei uma entrevista com a Clarisse Linke, do ITDP, na qual ela defende que um dos princípios para boa mobilidade urbana é o incentivo ao uso de bicicletas. E no sentido de promover esta visão, o ITDP, juntamente com as organizações Transporte Ativo e Studio-X, organizaram a exposição Ciclo Rotas Centro, que vai até o dia 1º de novembro no Rio de Janeiro. A exposição apresenta o resultado do mapeamento da demanda para uma malha cicloviária no centro do Rio, estudo que foi aprovado pela prefeitura e passou a fazer parte de seu planejamento.

Ciclo Rotas Centro

A Ciclo Rotas Centro, que está acontecendo no simpático espaço do Studio-X (onde também houve no ano passado a inspiradora exposição Design da Favela), tem sido aproveitada como oportunidade para organização de uma série de eventos paralelos, como a palestra de Mikael Colville-Anderson, CEO da Copenhagenize Design CO, realizada no dia 10 de setembro de 2013.

Ciclovia no Rio de Janeiro. Foto de beto padilha @Flickr

A Copenhagenize é uma consultoria especializada em promover a adoção de bicicletas como meio de transporte, e dentre suas atividades está a compilação do índice de cidades amigáveis para bicicleta (bike friendly index), que coloca o Rio de Janeiro dentre as 20 cidades mais amigáveis para bicicleta no mundo, a única cidade da América Latina a constar do índice. Os critérios são polêmicos: basta dizer que Londres não figurou nestes 20, para indignação do meu marido londrino e ciclista. Porém os indicadores são ilustrativos de como políticas urbanas em todo mundo estão incluindo a bicicleta nos seus planos de mobilidade.

Cycle chic

O Mikael falou em sua palestra sobre a criação de uma “cultura da bicicleta”, elemento importante na adoção deste meio de transporte pela população. Ele conta, ironicamente, que em Copenhague há uma cultura da bicicleta do mesmo jeito que há uma cultura do aspirador de pó – são usados porque são práticos, necessários, e a maneira mais simples de executar determinada tarefa. Diz ele: “nós não acenamos na rua para os outros que também usam aspiradores de pó, nem organizamos encontro das pessoas que usam aspiradores de pó”. Apesar da brincadeira, há de fato um movimento (espontâneo ou não) para tornar as bicicletas mais desejáveis. Um exemplo é o conceito do cycle chic, explorado pelo Mikael em um blog dedicado ao tema.

Linhas do desejo e microdesigns

Um ponto interessante da apresentação foi a ideia das desire lines, ou linhas do desejo. São aquelas linhas que podem ser vistas claramente na grama quando as pessoas usam um atalho pra chegar de um lado pra outro, desconsiderando o traçado preestabelecido das calçadas pavimentadas.

Linhas do desejo em Brasília. Foto de sergio_oliveira @Flickr

Tendo sido nascida e criada em Brasília, eu sei bem o que são estas linhas – enquanto as calçadas são construídas em retas, e ângulos de 90°, as pessoas simplesmente fazem os percursos mais curtos para chegar de A a B, que após pouco tempo ficam marcados no chão. Para Mikael, em uma cidade que privilegia seus pedestres e ciclistas essas linhas de desejo devem ser encorajadas e consolidadas, inclusive pavimentadas. Assim seria dada a prioridade para os padrões de mobilidade das pessoas, e não ao plano dos engenheiros e urbanistas.

Aliás, na visão de Mikael, 100 anos de engenharia de tráfego falharam: o número de mortos e feridos no trânsito continua alto, ao mesmo tempo em que o tráfego vai fluindo de mal a pior. (Inclusive, ele disse isso para uma plateia de engenheiros da CET, quando esteve em São Paulo para implementar o programa “Escolas de Bicicleta” da Secretaria Municipal de Educação– iniciativa lançada em 2012 que, entre outras atividades, forneceu bicicletas de bambu para 4,6 mil alunos da rede municipal).

Rampa para biciletas

Rampa para bicicletas. Foto de Jeremy Weate @Flickr

As linhas de desejo fazem parte de um conceito mais amplo de tornar as ruas amigáveis para as pessoas, fazendo intervenções que tornem a experiência de pedalar mais fácil e mais prazerosa. No sentido de facilitar a vida do ciclista também estão os “microdesigns”, pequenos detalhes que fazem a diferença, como a rampa na escada e o apoio para o pé enquanto se espera o sinal abrir. Os microdesigns e as linhas de desejo são dois dos 10 elementos de design que fazem de Copenhague uma cidade amigável para ciclistas.

 

 

Como uma cidade se torna amigável aos ciclistas?

Os investimentos de Copenhague em infraestrutura para ciclistas vêm acontecendo há mais de 40 anos. Mas existem cidades que atingiram resultados impressionantes em um curto período de tempo. É o caso de Sevilha, que viu a participação das bicicletas na sua matriz de transportes subir de 0 a 7% entre 2006 e 2013. Segundo Mikael, as três ações mais importantes para se tornar uma cidade amigável às bicicletas, e que podem ser encontradas em Sevilha, são:

  1. Esquema de compartilhamento de bicicletas (como Bike Rio)
  2. Reduzir a velocidade do tráfego – ruas de sentido único, limites mais baixos de velocidade
  3. Infraestrutura – ciclovias

Sabemos da enorme dependência que nós brasileiros temos dos carros. Para muitos de nós, é uma questão pessoal, de status, independência, estilo de vida e fonte de renda. Além disso, é o modo de transporte que tem sido favorecido pelos nossos governantes por pelo menos 60 anos, bem como um importante motor da nossa economia, ainda hoje. Porém, o planejamento urbano de ponta denuncia a enorme limitação do nosso modelo, e tem buscado propor alternativas que priorizem pedestres, ciclistas e transporte público. Ao ouvir Mikael falar de Copenhague, é impossível não ficar inspirada pela ideia de que as ruas são para as pessoas, e que carros são coisa do século passado.

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