Pensando o futuro na Europa

Notas de uma sessão de trabalho na Comissão Europeia

Nos dias 19 e 20 Junho estive em Bruxelas numa sessão organizada pela DG CONNECT da Comissão Europeia. O propósito era identificar áreas merecedoras de atenção em termos de investigação e desenvolvimento no âmbito do programa-quadro de financiamento europeu para o período 2014-2020: o Horizon 2020. Dos dez temas inicialmente propostos, os 18 participantes convidados e provenientes de vários países europeus, selecionaram cinco para debate:

  1. o caminho para a singularidade
  2. a evolução da aprendizagem e da educação
  3. novos modelos económicos
  4. um ecossistema de inovação “faça-você-mesmo”
  5. governança e criação de políticas.

Os participantes tiveram, então, oportunidade de ir rodando pelos vários temas enquanto, para cada um deles, procuravam resposta para as seguintes questões:

  • quais as tendências que têm, ou podem ter, impacto nesta área
  • o que falta para o desenvolvimento desta área
  • como se relaciona com os outros temas
  • o que está a Comissão Europeia a fazer bem e a fazer mal relativamente a este tema
  • quais os fatores que jogam a favor e contra o desenvolvimento do tema.
Análise SWOT do tema sobre Governança e definição de políticas

Análise SWOT do tema sobre Governança e definição de políticas

Os meus temas de eleição foram os novos modelos de negócio e a questão da governança e da criação de políticas. Sobre eles, ofereci uma perspetiva marcada pela minha paixão e experiência em gestão de conhecimento e com a utilização de ferramentas sociais para maior participação e impacto.

As principais ideias “oficiais” recolhidas na sessão estão disponíveis para consulta. A seguir apresento as minhas considerações sobre alguns dos temas, algumas das ideias e a sessão propriamente dita.

Um dos pontos que é repetido vezes sem conta em Portugal, que ouço ecoado no Brasil, e que também ali foi gritado pelos participantes dos outros países, é a crescente desconfiança nos políticos e consequente desinteresse dos cidadãos nos processos democráticos. No entanto, é crescente o número de exemplos em que cidadãos e/ou entidades se mobilizaram para fazer a diferença, para se fazerem ouvir, para fazerem acontecer. São exemplos que, por um lado, causam uma reação negativa (de receio pelo desconhecimento) nas instituições públicas, mas, por outro lado, de esperança, pois levam os cidadãos a acreditar que poderá haver formas de ter impacto societal sem depender das instituições públicas.

Um dos participantes da sessão disse que era fundamental criar um modelo de governança para a Internet. Acrescentou que não se tratará de um modelo como o definido para outros serviços como os caminhos de ferro ou o sistema de distribuição de água: talvez esses modelos devessem ser alterados para se assemelharem mais ao que for definido para a governança da Internet. Talvez se possam inspirar no Marco Civil da Internet recentemente aprovado no Brasil :)

A participação dos cidadãos e a confiança dos cidadãos no sistema e nas pessoas que os representam depende de informação. Depende de haver informação, de esta estar disponível e de esta ser credível. Depende também de ser possível “pegar” na informação e manuzeá-la de forma a poder olhá-la de várias perspetivas. Este ponto liga diretamente com a questão dos dados abertos, uma grande prioridade na estratégia europeia. Mas se alguns países, como Portugal, têm disseminado a importância e investido nesta área, são muitas as situações em que os dados estão disponíveis mas onde ninguém os encontra ou em formatos não utilizáveis ou pesquisáveis. E aí se perde a oportunidade de criar valor para a sociedade e até para a economia.

Relacionado com a ideia de dados abertos está o conceito de transparência. E até onde deve ir a transparência das instituições públicas? Na Suécia, por exemplo, as minutas de uma reunião entre um Ministro e o seu secretário são um documento público, disponível para consulta dos cidadãos. Será que isto é positivo? Ou poderá ter o efeito perverso de fazer com que os debates, o processo de decisão, aconteça em situações informais e não documentadas? E se isso acontecer, continuaremos a não ter essa transparência e estaremos a comprometer o registo e transferência de conhecimento que pode servir para melhorar trabalho futuro.

Um conceito que aprendi foi o de “pop(ular) foresight” que se pode traduzir como “previsão pop(ular)”. Diz respeito ao que acontece quando se pede a um grupo de pessoas para tentar prever, por exemplo, a importância de um tema no futuro. O que acontece é que, com a incerteza que deriva de um cenário desconhecido, as pessoas refugiam-se nas áreas em que se sentem mais confortáveis, em temas que consideram mais prováveis ou nos mais ouvidos. O resultado obtido não deriva de opiniões baseadas em factos e, por isso, pode até desviar a atenção de pontos mais prementes.

Um exemplo disto mesmo foi o que aconteceu na própria sessão onde estive. Apesar de para a votação de temas não nos terem pedido para votar nos temas mais importantes, o que aconteceu é que acabámos por discutir os temas com que estávamos mais confortáveis e talvez não os mais prioritários para a Europa.

Foi uma experiência de valor onde conheci pessoas com experiências complementares e que me despertaram para outras áreas. Em particular, fiquei com as orelhinhas no ar para a relação entre a Internet e as leis e normas. Nomeadamente, como a Internet vem criar novas oportunidades de aceder às leis, trazer a necessidade de criar novas leis para produtos e serviços baseados na web, ou adaptar normas que foram desenhadas quando ainda não se pensava na preponderância da Web.