Lições da Namíbia

Tweet O calcanhar de Aquiles de muitas iniciativas de inclusão social é o financiamento a médio e longo prazo. O caso da Bicycling Empowerment Network (ou Rede de Empoderamento com Ciclismo), na Namíbia, mostra que é possível ter sustentabilidade em um projeto social, mesmo em um país com problemas ainda mais […]

O calcanhar de Aquiles de muitas iniciativas de inclusão social é o financiamento a médio e longo prazo. O caso da Bicycling Empowerment Network (ou Rede de Empoderamento com Ciclismo), na Namíbia, mostra que é possível ter sustentabilidade em um projeto social, mesmo em um país com problemas ainda mais complexos que o Brasil. Mais que isso, no caso da BEN a sustentabilidade, através do empreendedorismo, é o elemento central do programa. Na entrevista a seguir Michael Linke, sócio-fundador da BEN Namíbia, compartilha um pouco da sua rica experiência.

 

Isabel: Você pode nos contar sobre o contexto em que o projeto aconteceu?

Michael: A Namíbia é aproximadamente do tamanho do estado de Mato Grosso, e tem uma população de 2,2 milhões. Para se ter uma ideia das carências que eles enfrentam, cerca de 70% da população não tem acesso a latrinas. O país tem uma história de “desempoderamento”, pois foi uma colônia até 1990, e enfrentou o regime de apartheid* por mais de 40 anos.

Bici-ambulância, desenvolvida pelo BEN Namíbia

Após a independência, a sociedade namibiana continuou muito desigual (tem desempenho pior que o Brasil no ranking GINI), o que significa, entre outras coisas, que o transporte público é praticamente inexistente. A população mais pobre gasta cerca de 25% de sua renda em transporte. É claro que isso traz enormes dificuldades para o acesso à saúde, educação e trabalho.

 

I: Como o projeto BEN Namíbia melhora as comunidades onde é implementado?

M: O projeto tem dois objetivos principais. O primeiro é melhorar a mobilidade, facilitando a aquisição de bicicletas. Uma bicicleta nova pode custar U$150, e para as pessoas que vivem em áreas rurais deve ser acrescentado ainda o custo de transportá-la até sua residência. Uma bicicleta de segunda mão em boas condições irá custar entre U$45 e 60, e através da rede de lojas da BEN Namíbia, é acessível para a maior parte dos moradores da zona rural.

Nós recebemos doações de bicicletas usadas provenientes da Europa e do Canadá. Fazemos uma triagem para garantir que todas as doações serão aproveitáveis, que estejam em boas condições ou possam ser facilmente reparadas. Não aceitamos bicicletas que não sejam robustas o suficiente para resistir às precárias condições das estradas namibianas.

Um dos empreendedores do BEN Namíbia

Conseguir as bicicletas é o primeiro passo, em seguida elas têm que ser preparadas para serem vendidas e aproveitadas. É para isso que existem as lojas. Desenvolvemos parcerias com organizações comunitárias locais que concordam em abrigá-las. Então buscamos uma localização adequada para a instalação das lojas, que são na verdade containers adaptados. Em seguida, provemos treinamento para aqueles que serão responsáveis pelas operações. O conteúdo inclui não apenas os aspectos mecânicos de consertar uma bicicleta, mas também os aspectos gerenciais de operar um negócio.

Portanto o projeto não é somente sobre mobilidade, é também sobre empreendedorismo e geração de renda. Os proprietários das lojas são membros de associações comunitárias que trabalham com algumas das parcelas mais excluídas da população. Para estas pessoas além de uma ocupação e fonte de renda, o projeto também abre oportunidades de crescimento. Muitos dos proprietários eventualmente diversificam seu negócio, incluindo outros produtos e serviços, como comida ou acesso à internet.

 

Vendedor de frutas e legumes que usa bicicleta do projeto.

I: Você pode citar algumas das atividades empreendedoras desenvolvidas pelos proprietários de lojas?

M: É muito gratificante ver a criatividade e empreendedorismo dos namibianos sendo aplicada na prática. Todos os tipos de negócios são feitos através das lojas de bicicletas: cyber café, lanchonete, serviços de táxi, impressão, padaria, venda de painéis solares, tijolos e até transações com gado.

 

I: Qual é o papel da BEN Namíbia no projeto, e com quais parceiros vocês trabalham?

M: Nosso papel como implementadores inclui a seleção de parceiros, busca de recursos financeiros, gestão logística, provisão de treinamento e apoio contínuos, e a coordenação do ressuprimento de bicicletas. Nós gerenciamos vários tipos de parcerias no processo: com os doadores de bicicletas, com patrocinadores, e com as organizações locais que supervisionam cada projeto (normalmente estas organizações estão envolvidas em serviços de saúde e assistência social). Nossos doadores incluem agências de governo internacionais, patrocinadores corporativos, organizações filantrópicas e indivíduos. A lista completa está aqui.

A grande rede de parceiros permitiu que pudéssemos multiplicar nosso programa. Muitos dos parceiros internacionais visitam os projetos, e descobrimos que é deles que provém o apoio mais constante. Creio que é um bom sinal que o comprometimento aumente após os patrocinadores verem os resultados com seus próprios olhos. Alguns parceiros nos conectam com voluntários, e também trabalhamos com vários voluntários da organização americana Peace Corps que nos ajudam a apoiar as lojas. Um outro parceiro importante, a Elephant Energy, provê treinamento em marketing e manutenção de produtos que usam energia solar, o que nos permite vendê-los em algumas lojas.

Além de manter estas parcerias vivas, nós também somos responsáveis por treinar os proprietários de lojas em manutenção de bicicletas e gestão, além de apoiar suas operações ao longo do tempo. Hoje temos 32 lojas, cobrindo grande parte da Namíbia, e estamos expandindo o projeto para Madagascar, Zambia e outras partes da África.

 

I: O que o Brasil pode aprender com a experiência de vocês?

Lydia Motinga, empreendedora.

M: A situação no Brasil é diferente da que encontramos na Namíbia. Primeiramente, é um dos maiores produtores de bicicletas do mundo. Além disso, todas as grandes cidades são servidas por transporte público (ainda que boa parte seja precário), e bicicletas são acessíveis de modo geral. Acredito que nossa experiência na Namíbia poderia ser uma solução interessante para mobilidade nas áreas rurais e remotas do Brasil, e talvez até em partes da periferia das grandes cidades.

Uma das principais lições que aprendemos é a abordagem de empreendedorismo para problemas de desenvolvimento (no nosso caso, mobilidade e acesso à saúde) pode ser muito mais simples para gerenciar e manter do que simplesmente doar bens materiais. Com apoio e orientação cuidadosos, os empreendimentos podem se tornar autossuficientes, o que é muito mais efetivo que sistemas de gestão de cima para baixo que não geram sua própria receita. Um grupo de trabalhadores da saúde com bicicletas doadas pode visitar seus clientes até que suas bicicletas quebrem e eles não tenham como consertá-las. A existência de uma loja de bicicletas permite que eles possam consertar suas bicicletas, alimentar seus filhos, cuidar dos órfãos da comunidade e prover bicicletas para centenas de pessoas nas suas localidades, todos os anos.

 

* Nelson Mandela, R.I.P.