Educação – Respostas Locais para Um Desafio Global

As principais ideias recolhidas durante a edição de 2015 das Conferências do Estoril, realizadas entre 19 e 22 de maio em Portugal

A semana passada assisti a algumas sessões das “Conferências do Estoril”. Trata-se de um evento bi-anual, organizado pela Câmara Municipal de Cascais e que pretende, com pessoa de todo o mundo e com o olho no mundo todo, pensar em respostas locais para desafios globais.

A futuro da educação foi o tema central de um dos painéis a que assisti. Tratou-se de um painel composto por Simon Dolan, Fons Trompenaars, Steef van de Velde e Heiko Hutmacher, onde se olhou a educação pelo prisma do que deve ser a educação / formação em cenário organizacional e para benefício das organizações.

Painel nas Conferências do Estoril

Painel com (da esquerda para a direita): Steef van de Velde, Fons Trompenaars, Simon Dolan, Heiko Hutmacher e Gijs Pothof (moderador)

Simon Dolan, da ESADE, relativizou a importância do conhecimento técnico face às competências pessoais e, especialmente, à paixão. Considera Dolan que é fácil ensinar a técnica a quem sente paixão pelo tema e que, havendo paixão, os resultados tendem a ser bem melhores.

Este conhecido autor, com variados livros publicados, falou também da importância de ser espiritual: disse ele que alguém que não é espiritual é mais resistente à mudança e, por consequência, menos produtivo. Para mim, porém, não ficou particularmente claro o que ele entende por “ser espiritual” e teria também gostado que ele pudesse ter explorado a relação entre abertura à mudança e a produtividade.

Quando questionado sobre o propósito da educação, Dolan frisou que o propósito depende do “objeto” que estivermos a considerar: o indivíduo?, o empregador? Se focarmos na pessoa, então, diz ele:

“propósito da educação é não se ser um escravo”

Fons Trompenaars :: Wikipedia, enriqueceu o painel com uma intervenção cheia de bom humor e na qual se percebeu a riqueza da sua experiência, nomeadamente no que diz respeito ao caso particular de equipas multi-culturais. “Se temos equipas multi-culturais temos de educar as pessoas para que saibam lidar com opostos”, aquilo a que ele chama dilemas.

Steef van de Velde partilhou que, na Rotterdam Business School da qual é reitor, os alunos são convidados a responder a três questões ao longo das suas primeiras semanas na Escola:

  1. Que tipo de futuro quer evitar?
  2. Que competências precisa para evitar esse futuro?
  3. Diga, então, com o que se compromete: “Eu vou…”

O segundo painel a que assisti debruçou-se sobre educação e desenvolvimento de jovens. Foram convidadas quatro pessoas para partilhar experiências concretas que, estando a oferecer respostas locais, pudessem servir de inspiração para outras zonas ou até mesmo para olhar para os desafios globais que se colocam neste tema.

Gad Yair, diretor do NCJW Research Institute for Innovation in Education (The Hebrew University of Jerusalem), comentou que é importante o Governo:

  • apoiar os jovens que decidem fazer coisas
  • criar políticas amigas dos jovens.

Um dos exemplos locais que Yair deixou foi o de um programa focado na mães. Desde o momento em que os filhos nascem, as mães recebem informação e recursos para que possam ir criando nos seus filhos curiosidade pela aprendizagem. Isto tem produzido bons resultados nas crianças mas também nas próprias mães.

Está agora a ser lançado um outro programa, este para “pais ocupados”, dando-lhes pistas de como podem conciliar as suas agendas com atividades com e para os seus filhos. O objetivo deste programa é, obviamente, apoiar o desenvolvimento das crianças mas também ir trabalhando para uma mudança de mentalidades: de punhos para palavras.

Deixou-nos com a mensagem de que os telemóveis são uma arma do mundo ocidental contra os Governos da zona este.

Pedro Sebastião Teta, Secretário de Estado da Ciência e Tecnologia do Governo de Angola, partilhou o projeto ReMA – Rede de Mediatecas de Angola que tem vindo a criar, por todo o país, espaços de acesso livro à Internet, a recursos audio-visuais e a livros. Frisou várias vezes durante a sua intervenção o grande dilema com que se depara o Governo de um país como Angola: quantidade versus qualidade. Para onde deve ir o investimento?: para criar mais escolas e criar acesso à educação a mais pessoas?, ou para melhorar a qualidade da infra-estrutura e da qualidade de ensino ministrada às pessoas? Entendo bem o dilema e pergunto-me até que ponto este dilema não é sentido também em países como o Brasil.

Green School

O coração da Green School em Bali, na Indonésia

John Stewart veio de seguida arregalar os olhos da plateia com uma imagem da Green School no Bali, Indonésia, escola que dirige desde final de 2013. Nesta escola acredita-se que a educação deve ter um forte componente lúdico, e focar-se em instigar a curiosidade. O currículo inclui assim quatro elementos:

  • IQ – intelectual e cognitivo;
  • EQ – emocional;
  • PQ – físico;
  • XQ – expressivo ou criativo.

É uma escola aberta à família e restante comunidade, que promove os valores do Respeito, da Responsabilidade e dos Relacionamentos, acreditando que a educação é, acima de tudo, para ajudar as pessoas a tornarem-se melhores seres humanos.

E, diz Stewart, ainda que haja muitas razões económicas para investir na educação das crianças, vale a pena não escolher que há razões bem mais egoístas para o fazer – são elas que irão escolher o lar da terceira idade para onde iremos.

“Encara a informação como sendo algo que és responsável por partilhar.”

Com uma perspetiva bem diferente, Nick Connolly coordenador do grupo de Pedagogia da St Julian’s School (uma escola inglesa em Portugal), comentou que, quando privadas de informação, as pessoas acabam por dar muito mais valor à informação e às ideias a que têm acesso, investindo numa análise mais profunda e exercendo uma crítica mais cuidada.

Referiu que, em Portugal, a educação é uma constante tensão entre o que se tem e aquilo que se aspira ter. Disse ainda que é importante preparar os miúdos para um mundo impiedoso e ambientes de cortar à faca, como é todo o processo de entrada nas melhores universidades, por exemplo. Há ainda uma forte preocupação cívica que visa mostrar o papel de cada um na sociedade, encorajando-os a participar ativamente (através do voto, por exemplo).

Ia com grandes expetativas para mais esta edição das Conferências do Estoril. Para ser totalmente sincera, e apesar de ter ouvido alguns apontamentos interessantes, não fui tão inspirada ou desafiada como contava. Reconheço o valor dos intervenientes pelo que poderá valer a pena questionar o formato escolhido ou o tempo reservado para as suas intervenções.

Tive pena, por exemplo, de não poder ter ouvido a opinião destas pessoas relativamente a um ponto sobre o qual não consigo ter uma opinião constante, alternando entre uma e outra alternativa: deveremos nós criar sistemas de ensino que ajudem os jovens a serem melhores seres humanos através das áreas que mais lhes interessem (como sugeriram vários dos intervenientes) OU deve o próprio sistema de ensino incentivar o desenvolvimento de competências e conhecimento considerados estratégicos para o país?

Até que ponto tem o país o direito de influenciar o destino do indivíduo? E até que ponto tem o indivíduo o direito de fazer os seus direitos prevalecer sobre as necessidades do seu país? Será, como diz Simon Dolan, mais importante ter indivíduos apaixonados, a fazer aquilo que gostam, acreditando que, se chamados para as áreas estratégicas do país, serão capazes de responder (até porque o país os serviu, dando-lhes espaço para fazer o que queriam)?