Crowdfunding, Crowdsourcing e seu uso no setor público

Tweet A utilização da web para o financiamento de projetos através de um grande número de pequenos investidores, operação chamada de crowdfunding (ou financiamento colaborativo), já tem diversos exemplos no Brasil, como o Catarse, o Vaquinha, o Itsnoon, o Queremos e o Tzedaka. Internacionalmente são conhecidos o Kickstarter nos EUA, […]

A utilização da web para o financiamento de projetos através de um grande número de pequenos investidores, operação chamada de crowdfunding (ou financiamento colaborativo), já tem diversos exemplos no Brasil, como o Catarse, o Vaquinha, o Itsnoon, o Queremos e o Tzedaka. Internacionalmente são conhecidos o Kickstarter nos EUA, e o Crowdcube aqui no Reino Unido. Há diversos casos bem sucedidos de projetos que conseguiram financiamento desta maneira no setor privado. Porém como aplicar esse conceito ao setor público? Participei de uma sessão no último LocalGovCamp na qual discutiu-se exatamente isso.

Uma das ideias sugeridas durante a sessão é usar o crowdfunding para financiar atividades ou eventos que o governo tenha interesse de promover e facilitar, porém para os quais não possua a verba necessária. Em um cenário de cortes radicais no orçamento público, como vem sofrendo o Reino Unido, no qual mesmo benefícios básicos e essenciais como a assistência social a portadores de deficiência têm sido revistos e reduzidos, fica difícil justificar, por exemplo, a tradicional queima de fogos do dia 5 de Novembro, promovida todos os anos pelos governos locais em toda a Inglaterra. Ao invés de sumariamente cancelar o evento, a autoridade local de Lewisham na Grande Londres, resolveu apelar para o crowdfunding e desta maneira conseguir levantar a verba necessária.

Algumas pessoas talvez vejam com maus olhos que o governo saia por aí com o chapéu na mão pedindo dinheiro, quando já se pagam tantos impostos e taxas. Mas é de se esperar que a população entenda e até aprecie que o governo esteja concentrando seus gastos em áreas essenciais, e não se importe de contribuir quando sabe-se exatamente em que será gasto o seu dinheiro. De fato, transparência nestes casos é ainda mais importante.

No caso de Lewisham, a audiência para a queima de fogos foi mais alta que em anos anteriores, o que sugere que, ao ajudar a fazer acontecer o evento, a população tenha se sentido ainda mais engajada. Por isso é que no caso de serviços públicos é fundamental que o crowdfunding venha de mãos dadas com o envolvimento em massa da população no desenho de um determinado serviço. Se a população está ajudando a pagar, nada mais justo que ela também participe do desenho (aliás, a população SEMPRE deveria participar do desenho de serviços).

Crédito: James Mitchell @ Flickr

 

Uma outra maneira para o setor público usar crowdfunding seria juntando-se a outras autoridades locais para comprar em conjunto. Não conheço nenhum caso em que isso tenha acontecido, mas com mais de 150 autoridades locais só na Inglaterra imagino que uma operação assim poderia ser útil para financiar algo que várias delas pudessem compartilhar – talvez software, um projeto cultural, ou uma pesquisa na qual todos tenham interesse nos resultados.

Parente próximo do crowdfunding, mas com nuances diferentes é o crowdsourcing, operação que utiliza a web para encontrar indivíduos interessados em realizar uma tarefa, ou uma micro-atividade (nesse capítulo, vale conferir o simpaticíssimo Taskrabbit). Ao contrário do crowdfunding, em que se busca e oferece contribuições materiais, o crowdsourcing busca contribuições em trabalho e esforço individual.

Um exemplo interessante de uso de crowdsourcing é o do governo local de Barnet, também na Grande Londres, que tem utilizado uma plataforma chamada Pledgebank (ou Eu prometo na tradução em português) para engajar a população local em projetos comuns. Essa iniciativa tem bem o sabor da Grande Sociedade e do Localismo, conceitos bastante em voga no Reino Unido, como já postei.

O lema do Pledgebank é: eu prometo, mas só se alguém ajudar. Isso permite que indivíduos proponham ações conjuntas (como tirar a neve na calçada da frente de uma escola) e angariar voluntários para ajudarem na iniciativa. Além do exemplo da neve na calçada, o governo de Barnet também tem usado o Pledgebank para que residentes do bairro possam fazer as festas de rua, conseguindo o apoio de vizinhos para a realização de festas de rua. E o governo se compromete a emitir a autorização para a festa desde que haja um mínimo de três vizinhos apoiando a organização. É uma maneira engenhosa de promover laços comunitários, com custos relativamente baixos para o setor público.