Consulta fechada + comentários sem resposta = cidadão desmotivado

Tweet A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) já há algum tempo que mostra valorizar a participação da sociedade civil, das organizações privadas e dos cidadãos, na vida da região centro do país. Porque a participação só pode ser de qualidade se vier de pessoas informadas, a […]

A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) já há algum tempo que mostra valorizar a participação da sociedade civil, das organizações privadas e dos cidadãos, na vida da região centro do país.

Porque a participação só pode ser de qualidade se vier de pessoas informadas, a CCDRC criou em 2011 o DataCentro,

a plataforma informática do sistema de monitorização e avaliação da situação da região Centro. Trata-se de uma aposta da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro num serviço público de informação, único ao nível da região, de fácil utilização e direcionado para um público-alvo diversificado.

DataCentro do CCDRC, Portugal

DataCentro do CCDRC, Portugal

Alguns dados já têm alguns anos, mas a forma como estão apresentados, as combinações possíveis, a simplicidade de utilização, tornam o DataCentro num projeto de qualidade que merece a nossa atenção.

Foi por saber da postura aberta e inclusiva desta organização que não me surpreendeu quando, recentemente, li a notícia de que a CCDRC estava a convidar os cidadãos a contribuir ideias e opiniões para informar a definição da estratégia da Região Centro de Portugal para o período de 2014 a 2020.

Na verdade, é fundamental envolver os cidadãos, ouvir o que têm para dizer. Envolvê-los no processo de definição de estratégia significa que estarão mais recetivos para abraçar a estratégia definida. Ouvir as suas ideias significa um reconhecimento de que ninguém melhor do que os recetores da estratégia para apontar o dedo aos atuais problemas, identificar oportunidades, e sugerir formas de ultrapassar uns e tirar partido das outras. Por muito bons que sejam os colaboradores de uma organização ou os dirigentes de uma região, nunca serão tão bons isolados do que como com a ajuda de todas as cabeças dos cidadãos (da região).

Mas se esta vontade de ouvir os cidadãos não me surpreendeu, surpreendeu-me o processo proposto para essa escuta: o preenchimento de um formulário online ou o envio de um email.

Sinto, sinceramente, que foi uma oportunidade perdida. E como tenho assistido a várias por parte de muitas organizações, não posso ficar calada, sendo que o objetivo é o mais puro possível: o de tentar ajudar para que os processos de participação pública sejam o mais eficázes e proveitosos possível. Assim, deixem-me voluntariar algumas considerações e sugestões que espero possam ser úteis para todas as organizações que desejam mesmo consultar os cidadãos.

Quando alguém decide investir o seu tempo para fazer uma sugestão, esta merece ser analisada e criticada de forma construtiva, apontando os méritos e as lacunas. Isso faz com que a pessoa sinta que o seu tempo valeu a pena e dá-lhe a possibilidade de poder clarificar algum ponto, de aprender, de desenvolver a sua linha de pensamento.

As ideias dadas devem ficar visíveis e devem ser debatidas publicamente, de forma transparente e correta. Para quem dá a ideia, significa um reconhecimento público, se não da ideia, do seu esforço. Para quem lê a ideia, é uma oportunidade de contribuir contactos e conhecimento que ajudem a melhorar a sugestão, ou a perceber rapidamente a sua inviabilidade. Para a organização que recolhe as ideias, há uma redução de riscos (por exemplo de repetir erros já conhecidos), reduz-se a possibilidade de sugestões duplicadas, aumenta-se a qualidade das ideias, consegue-se um maior diálogo e transparência, e no processo construiu-se uma base de conhecimento valiosa que ajudará à auditoria do processo, e à implementação das próprias ideias.

Imaginem este cenário. Duas pessoas avançam duas ideias utilizando o processo criado pela CCDRC. As duas ideias são opostas, mutuamente exclusivas. O que faz a CCDRC nessa situação? Ignora? Contacta as pessoas individualmente para perceber o fundamento? Convoca uma reunião? Com que participantes? Dá para perceber onde quero chegar certo.

As plataformas para ouvir os cidadãos são já muitas: em Portugal e no estrangeiro, de iniciativa pública e privada. O Cidadania 2.0 já foi palco de algumas:

E este ano traz outras:

 

Para além destas plataformas, há muitos outros espaços onde os cidadãos se podem fazer ouvir, de forma aberta, transparente, podendo ser criticados, mas também com a possibilidade de, em conjunto, poderem trabalhar as suas ideias, elevando-as a um patamar superior, apenas ao alcance das multidões.

Finalmente, não posso deixar de referir um outro ponto importante. Eu tomei conhecimento desta iniciativa da CCDRC através da sua página no Facebook.

Ao perceber aquilo que considero uma oportunidade perdida, tomei a liberdade de deixar um comentário. Sete pessoas gostaram do meu comentário, ao qual se seguiram outros quatro em total acordo (um deles do nosso querido Álvaro Gregório do iGovSP). Nenhum mereceu resposta da CCDRC.

Comentários a notícia do CCDRC no Facebook

Comentários a notícia do CCDRC no Facebook

Não acredito que seja por não respeitarem ou não terem gostado do conteúdo dos comentários. Acredito sim que seja por não terem, internamente, um processo ou o hábito de resposta aos comentários feitos através daquele canal de comunicação da CCDRC.

Desde que foi criada em Março deste ano, a CCDRC ainda não respondeu a um único comentário deixado. Certo, não há muitos, mas talvez essa seja mais uma razão para que os poucos que há sejam respondidos. E se os poucos passarem a ser muitos por via de as pessoas sentirem que são ouvidas e respeitadas, a probabilidade é que a própria comunidade entre em diálogo, respondendo aos comentários uns dos outros. E em muitos casos a CCDRC nem terá de intervir.

E quando eu digo a CCDRC, acreditem!, poderia estar aqui a falar de 1001 outras organizações. Peguei na CCDRC porque sou da região centro e porque acredito que aje com os melhores propósitos e que, como muitas outras organizações, terá ainda algum desconhecimento do que é possível e/ou receio do que poderá acontecer quando se criam canais públicos para colaboração e debate em sociedade.

Para todas elas, um voto de coragem e um convite para participarem no Cidadania 2.0 ou, pelo menos, olharem para os casos apresentados.