Avaliação e parcerias em projetos financiados

Tweet A semana passada participei no evento GREAT Lx, evento que celebrava o final do Projeto GREAT – Game-Based Research in Education and Action Training. Este projeto, incluído num programa de financiamento europeu, foi realizado por 6 parceiros de 5 países. Foi bom poder ouvir e pensar um pouco nestas […]
Um dos painéis de debate durante o GREAT Lx

Um dos painéis de debate durante o GREAT Lx (Photo by @PivecLabs)

A semana passada participei no evento GREAT Lx, evento que celebrava o final do Projeto GREAT – Game-Based Research in Education and Action Training. Este projeto, incluído num programa de financiamento europeu, foi realizado por 6 parceiros de 5 países.

Foi bom poder ouvir e pensar um pouco nestas áreas. Confesso que esperava ouvir um pouco mais sobre a aplicação de jogos à formação organizacional mas, ainda assim, foi útil ouvir experiências e reflexões em cenários educativos.

Mas mais do que falar aqui do tema do evento, gostava de abordar aqui alguns pontos relacionados com projetos (europeus) financiados. São pontos que a mim, enquanto cidadã europeia, me incomodam bastante e que devem ser considerados em cenários nacionais e transnacionais onde se procure incentivar a cooperação em torno de objetivos estratégicos definidos.

Avaliação de candidaturas

Um desses pontos tem logo a ver com a avaliação das candidaturas.

Durante o GREAT Lx ouvi Claudio Dondi, com grande experiência de avaliação de candidaturas, referir que esta avaliação dá geralmente maior relevância aos aspetos de (gestão de) projeto do que aos resultados / impactos esperados. Quem são as entidades envolvidas, qual o orçamento, quando e como serão elaborados relatórios: são aspetos importantes mas não mais importantes do que o impacto esperado.

A grande questão aqui é que, muitas vezes, os avaliadores não têm conhecimento suficiente para fazerem uma avaliação sobre os impactos (são realistas?, fazem sentido?, são importantes?) e refugiam-se na avaliação dos aspetos mais conhecidos da concretização do projeto propriamente dito.

Curiosamente, ontem em conversa com duas pessoas que já fizeram parte de grupos de avaliação de candidaturas, fiquei a saber que os avaliadores não são remunerados por esse trabalho. Isso significa que é difícil conquistar e reter bons profissionais, especialistas nas áreas temáticas das candidaturas, para a realização desse trabalho. Não admira, portanto, que a avaliação seja o que é.

Parcerias

Um outro ponto que considero pertinente, referido por vários dos oradores no GREAT Lx, prende-se com a cooperação no âmbito destes projetos financiados.

Um dos critérios que valoriza uma candidatura é o número de parceiros envolvidos e a existência de parceiros de vários países. O objetivo aqui é que os projetos financiados possam resultar em algo aplicável em diversas culturas e que tenha uma probabilidade de maior impacto (geográfico).

Assim, quando chega a altura de apresentar uma candidatura, chega também a altura de desenterrar parceiros que, muitas vezes, se agarram a essa oportunidade como forma de conseguir verbas (muitas vezes fundamentais para a sua sobrevivência).

Logo à partida identifico um grave problema que tem a ver com as motivações, mais precisamente, com a motivação errada para o estabelecimento de uma parceria e para a entrada numa equipa de projeto. Não admira, portanto, que, como Maja Pivec referiu durante o evento, seja extremamente difícil conseguir o empenho de todos na produção de resultados e na criação dos materiais (outputs) do projeto.

Relacionado com este ponto, também Audrey Frith lançou a provocação: se é tão difícil gerir estas parcerias transnacionais, porque continuamos a apostar nesta tipologia de projetos e não apostamos em projetos a nível local?

Avaliação de resultados

Permitam-me pegar nesta questão e ligá-la a um outro ponto que considero também de extrema, extrema importância: a avaliação. Mas desta vez, a avaliação dos projetos (e não das candidaturas).

Vejo repetidamente projetos que são avaliados pelo número de pessoas que visitam o website do projeto, ou pelo número de países onde se fizeram pilotos, ou pelo número de eventos realizados, ou pelo número de vezes que o projeto é referido na comunicação social. Este é o tipo de mentalidade que justifica a contínua aposta em projetos transnacionais – pelo menos, garantidamente, conseguimos chegar (ainda que indiretamente) a um número maior de pessoas.

Mas afinal, para que é que isso interessa? O que interessa fazer pilotos em 10 países se nenhum desses pilotos dá frutos? O que interessa investir em parcerias transnacionais para garantir uma maior abrangência geográfica se (alguns) parceiros depois não se empenham em produzir resultados efetivos?

Não será mais válido ter uma aldeia que adotou um prática e reduziu o despovoamento do que ter dez aldeias, em vários países, que entraram em pilotos que não deram em nada (por qualquer que tenha sido a razão)?

Esta forma de pensar focada na atividade (número de participantes, de agentes, de referências, etc.) alienada de uma avaliação efetiva do impacto conseguido (número de mudanças conseguidas, melhoria da situação, etc.) é o que torna muitos dos projetos inconsequentes.

Quer dizer, inconsequentes, não! Têm algumas consequências bem visíveis:

  • um investimento de dinheiro público em projetos com baixo retorno
  • uma descredibilização dos projetos financiados
  • um propagar de maus hábitos.

E o engraçado (sem graça nenhuma, convenhamos) é que muitas destas coisas acontecem também dentro das organizações, públicas e privadas. Ainda que no caso destas últimas, não me preocupe muito – afinal de contas, não é o meu dinheiro que estão a desperdiçar!

Notas: Os comentários pessoais que aqui incluem não têm nada a ver com o projeto GREAT sob o qual não sei muito, confesso. Também não são resultado de ter tido alguma candidatura “minha” recusada 😀