Utilização de telemóveis em contexto de aprendizagem: à conversa com Adelina Moura

Tweet Penso que todos acreditamos que o futuro está nas mãos das nossas crianças, dos nossos jovens. São determinantes os valores que vão absorvendo, o conhecimento que vão obtendo, as competências que vão adquirindo, os comportamentos que vão adotando, os caminhos que vão traçando. Muito deste crescimento, enquanto pessoas e […]
Adelina Moura

Adelina Moura

Penso que todos acreditamos que o futuro está nas mãos das nossas crianças, dos nossos jovens. São determinantes os valores que vão absorvendo, o conhecimento que vão obtendo, as competências que vão adquirindo, os comportamentos que vão adotando, os caminhos que vão traçando.

Muito deste crescimento, enquanto pessoas e cidadãos, tem lugar na escola: um espaço privilegiado para a experimentação, para a descoberta, para a partilha e para o diálogo.

Adelina Moura é uma professora portuguesa que tem lutado de forma apaixonada para criar condições favoráveis para a aprendizagem e para o crescimento dos seus alunos. No centro da sua abordagem inovadora, estão os dispositivos móveis para acesso à Internet e como ferramentas de aprendizagem. Acredita que são já instrumentos importantes do nosso dia-a-dia e que serão fulcrais num futuro próximo. Como podemos, então, conceber um curriculum escolar que não ajude os jovens a incorporá-los no seu processo de aprendizagem?

Tive o prazer de conversar com a Adelina Moura, através da Internet (pois claro!), e aquilo que partilho de seguida é um pequeno resumo dessa agradável conversa.

Licenciada pela Universidade do Minho numa vertente de ensino de Português e Francês, Adelina começou a sua carreira como professora há 32 anos. Uma passagem pela Direção de uma escola levou-a a estudar Administração Escolar e depois a fazer um Mestrado em Supervisão Pedagógica.

Depois deste Mestrado, em 2003, pediu autorização à escola onde lecionava, para dar as suas aulas de Português nas salas de Informática: queria usar computadores na sala de aula. Foi com esta experiência – o projeto Português On-line – que concorreu e ganhou um prémio atribuído pela Microsoft Portugal no Concurso Professores Inovadores. Essa vitória nacional mereceu-lhe uma deslocação a Estocolmo, Suécia, em Maio 2005 para o 2º Fórum Europeu para Professores Inovadores. O tema da sua intervenção foi “How to be an innovative teacher in Portuguese classes”. Aí conheceu Philippe Steger do projeto WapEduc, L’Ecole Nomade que despertou o seu interesse para a utilização dos dispositivos móveis no contexto curricular.

Em 2005, logo após o final do seu Mestrado, Adelina mergulha de corpo e alma no seu Doutoramento que dedicou à Tecnologia Educativa, em particular ao mobile learning, e cuja tese tanto tem dado que falar.

Motivada pela vontade de inovar, pelo descontentamento com a cristalização do sistema de ensino e dos planos de aulas, tem vindo a experimentar diferentes formas de integrar os dispositivos móveis nas atividades curriculares dos seus alunos. Procura criar um modelo de aprendizagem (e não de ensino) informal, seguindo uma filosofia de “anytime” e “anywhere” (em qualquer momento e em qualquer lado).

A sua ideia inicial, quando arrancou com o seu Doutoramento, era conseguir um dispositivo móvel para cada aluno seu. Infelizmente, e apesar das promessas, os apoios necessários não se materializaram. O plano B foi trabalhar apenas com os dispositivos móveis que os alunos já tinham, em particular o telemóvel, cuja posse era de 100%. Uma espécie de BYOD de que agora tanto se fala.

Atualmente, todos os alunos têm telemóvel, sendo que 35% são smartphones possibilitando a navegação na Web. Os alunos podem trazer para a sala de aula: tablets e smartphones, essencialmente, mas também PSPs. Juntam-se a estes, 6 tablets que a escola conseguiu adquirir recentemente.

A Escola Secundária Carlos de Amarante onde Adelina leciona encontra-se no centro da cidade de Braga e é frequentada por alunos com condições sócio-económicas média-altas. Têm maior acesso a dispositivos móveis do que alunos de outras escolas em meios desfavorecidos. Isto significa que, num cenário como este em que os dispositivos são propriedade dos alunos, esta abordagem pode contribuir para um maior fosso informacional entre classes.

Desafiei Adelina sobre se, mesmo dentro da própria turma, considerando que nem todos os alunos têm equipamento móvel para levar para a escola, não se estariam a criar condições discriminatórias e sentimentos de exclusão. Adelina considera que não; que organiza atividades que, em grupos, criem oportunidades iguais para todos. Defende também que os jovens, tal como partilham lápis e livros, não têm qualquer problema em partilhar os seus dispositivos. E, afinal de contas, alimentar este espírito de partilha é também um elemento importante do plano de formação.

Adelina Moura tem encontrado muitas formas de introduzir os dispositivos móveis com acesso à Internet no plano de aprendizagem.

Para cada turma cria um blog ou Website, adaptado às telas pequenas dos telemóveis (por exemplo, http://geramovel.wirenode.mobi/, http://7aesca.blogspot.pt/). Nesse blog vai partilhando material e, quinzenalmente, disponibiliza atividades que os alunos devem realizar para cimentar a sua aprendizagem.

Tela de um dos sites criados por Adelina Moura

Tela de um dos sites criados por Adelina Moura

Cada aluno cria e mantém o seu dicionário personalizado no seu telemóvel/smartphone, ao qual vai adicionando as palavras que desconhece. No final do ano, cada aluno tem um dicionário “pessoal” talhado para as suas necessidades individuais.

Depois de perceber que, dos 28 alunos de uma turma, 24 tinham conta no Facebook, sugeriu a criação de um grupo fechado, só para si e para os seus alunos. Nesse espaço, os aluno podem usar a linguagem SMS, sem censura, para debater o que sentirem importante, pois o relevante é dar voz aos alunos fora da sala da aula, em contexto informal. Um dado curioso é que os alunos que mais participam com comentários são os que o fazem através do telemóvel.

Este ambiente já serviu para uma atividade em sala de aula. Adelina partilhou três páginas com texto e imagens, referentes aos momentos iniciais de uma história criada com a aplicação Storybird que quis terminar com a ajuda dos seus alunos de 7º ano de Português. Trabalhando em grupo, eles foram deixando comentários, ideias de como a história poderia continuar. Em conjunto, nessa aula, deixaram mais de 60 comentários.

Um exercício de brainstorming usando a aplicação AnswerGarden beneficiou também da utilização dos aparelhos móveis dos alunos que neles foram introduzindo as suas ideias. Na tela de projeção da sala de aulas, todos podiam ir acompanhando as ideias que os seus colegas iam partilhando.

Inspirada no projeto brasileiro A Telinha do Cinema, “foi realizado um laboratório criativo de produção de vídeo com uso de telemóvel” no contexto da obra literária “O Cavaleiro da Dinamarca”. Como se descreve num artigo já publicado sobre esta experiência, “[a]través deste projeto os alunos tiveram a oportunidade de entrar em contacto com produções audiovisuais, ligar criações literárias e narrativas audiovisuais”. (Mais informação deste projeto pode ser encontrada aqui e aqui pode ver um dos vídeos resultado desta atividade).

Os alunos podem recorrer aos seus telemóveis durante os testes, para consultar dicionários, por exemplo. Afinal, como diz Adelina, “Até no dia dos testes se pode aprender muito.”

Telemóveis na sala de aula (Foto: Liliana Rocha Dias do JPN)

Todas estas atividades e opções letivas, têm beneficiado os alunos de várias formas:

  • potenciação dos tempos livres e acesso a uma maior quantidade de informação
  • responsabilização dos alunos pela sua própria aprendizagem (eles podem escolher se querem trabalhar com papel e lápis ou recorrendo aos dispositivos móveis, por exemplo)
  • aumento da autonomia
  • sensibilização para questões como os riscos inerentes à presença nas redes sociais
  • maior consciência do contexto em que se encontram (diferentes canais e situações permitem e exigem diferentes linguagens e tons de conversação, por exemplo)
  • aumento da auto-confiança pelo facto de sentirem que têm uma voz própria.

Apesar de tudo isto, Adelina tem enfrentado vários obstáculos neste seu percurso. Um deles é o desconforto dos colegas perante esta forma de querer dar aulas. Sentem “medo de arriscar, de mostrar fragilidades em frente aos alunos”.

Isto reflecte-se de várias formas mas com impacto direto no sucesso deste tipo de abordagem:

  • devido ao receio de que os alunos acedam a conteúdo impróprio, até ao ano passado, por exemplo, estava bloqueado o acesso a sites como o YouTube, o Facebook ou o Twitter. Por vezes, ainda há problemas de acesso a sites em virtude das restrições de rede.
  • como todos os outros professores proíbem a utilização de dispositivos móveis durante as aulas, os alunos recebem mensagens contraditórias e ficam confusos em determinadas situações.

Adelina sabe que está a desbravar terreno, antecipando para os seus alunos a realidade de um futuro relativamente próximo. A sua grande preocupação é potenciar a aprendizagem dos seus alunos. Aliás, “potenciar” é uma palavra que repetiu imensas vezes durante o tempo que conversámos.

Adelina Moura diz que o que faz não é “nada que outro professor não possa fazer”. A verdade é que exige um enorme esforço contínuo, esforço esse apenas compatível com alguém apaixonado pelo que faz e com uma grande vontade de contrariar os “curricula pronto-a-vestir” tão alicerçados no nosso sistema de ensino.