A Economia da Fartura

Tweet Você já pensou que aquela furadeira que você tem esquecida em alguma prateleira escura poderia ser uma fonte de renda? Ou melhor: você já pensou que em vez de possuir uma furadeira você poderia facilmente alugar uma por um custo razoável, somente quando precisar dela? Talvez você já faça […]

Você já pensou que aquela furadeira que você tem esquecida em alguma prateleira escura poderia ser uma fonte de renda? Ou melhor: você já pensou que em vez de possuir uma furadeira você poderia facilmente alugar uma por um custo razoável, somente quando precisar dela? Talvez você já faça isso, a custo zero, pegando a do vizinho emprestada, mas imagine quantas ferramentas ao redor do mundo passam a maior parte da sua vida útil esquecidas em algum armário, subutilizadas.

Preciosas ferramentas. Crédito: Rob, Joyce, Alex and Nova @Flickr

Tradicionalmente os custos de transação para explorar economicamente esta capacidade ociosa seriam altos demais: anunciar o aluguel de uma furadeira, atender os interessados, agendar a retirada, correr o risco de nunca mais ver sua preciosa máquina. Porém a internet combinada a sistemas com usabilidade bem resolvida reduzem estes custos de transação, tornando operações assim (como faz o Openshed, na Austrália), não só possíveis como vantajosas para ambas as partes. Iniciativas como esta fazem parte do vem sendo chamado de consumo colaborativo, do qual a britânica Rachel Botsman é uma entusiasmada divulgadora.

 

O consumo colaborativo

O rótulo consumo colaborativo se refere a iniciativas de compartilhamento, facilitado pela tecnologia, de bens e serviços. Começou com música, filmes e jogos. Mas agora se diversifica largamente, incluindo desde imóveis (como o AirBnB) até tempo (como nos bancos de tempo). O conceito também é associado com o acesso em lugar da propriedade, isto é, transformando produtos, como painéis de energia solar (caso da Sunrun), em serviços.

Casa em Nova Iorque, disponível no AirBnB. Crédito: Pelle Sten @Flickr

O consumo colaborativo pode tomar impulso em tempos de crise, como uma alternativa para economizar ou gerar caixa. Mas na sua essência o compartilhamento não é só uma opção para quem não tem dinheiro suficiente para comprar e POSSUIR alguma coisa. Ao contrário, pode ser uma alternativa para quem prefere ACESSAR algo, segundo sua própria conveniência, sem o comprometimento e os custos de zelar pela manutenção de, digamos, um carro, ou uma casa de final de semana, mas extraindo destes bens os mesmos benefícios. Vários estudos americanos têm descrito a opção da geração Y (aquela nascida a partir dos anos 1980) por não possuir automóvel, o qual já não se encaixaria no estilo de vida de muitos jovens adultos.

 

Referência em mobilidade

De fato, os casos mais robustos de aplicação do consumo colaborativo vêm da área de mobilidade. Existem diversos exemplos bem sucedidos ao redor do mundo de compartilhamento de bicicletas, carros e até motonetas. Mais que isso, há relatos de que o compartilhamento de bicicletas é a forma de transporte público que mais cresce no momento.

Do ponto de vista dos serviços públicos o compartilhamento de meios de transporte é um componente essencial para sustentabilidade das metrópoles, já que diminui o número de carros em circulação e a necessidade de espaço para estacionamento, além de ter impacto positivo sobre os índices de saúde pública.

 

Dois modelos de consumo colaborativo

Aliás, o caso da mobilidade, mais especificamente o compartilhamento de automóveis, é útil para ilustrar dois tipos de consumo colaborativo. O primeiro é o modelo de acesso, em que uma organização é dona dos produtos e os aluga para indivíduos que não necessariamente têm contato entre si. É o caso da Zipcar, na qual a brasileira Zazcar, com operação em São Paulo, se inspira.

O segundo é o ponto-a-ponto (peer-to-peer), no qual as transações se dão entre dois indivíduos, mesmo que intermediadas por um terceiro. Aqui o exemplo seria a americana RelayRides, que permite que proprietários de automóveis aluguem seus carros por curtos períodos.

O apelo do modelo ponto-a-ponto para os consumidores é, em geral, o custo mais baixo que de modelos tradicionais. Para os fornecedores, isto é, aqueles que oferecem um produto que estão subutilizando, é uma maneira de gerar renda com um ativo que de outra maneira estaria parado. Além disso, promove contatos e confiança entre desconhecidos, além de ajudar a desfetichizar a posse de um automóvel.

Por sua vez, o modelo de acesso tem a vantagem da rapidez, conveniência, e maior padronização da qualidade. E é ainda mais barato que possuir certos produtos, especialmente no caso de automóveis (veja esta comparação feita em São Francisco).

 

Acesso

O modelo de acesso é uma interessante alternativa para implementar política pública sem que o governo forneça diretamente determinado serviço. É o caso do BikeRio, financiado pelo Itaú e apoiado pela prefeitura do Rio de Janeiro.

Mas ainda há muito espaço para crescimento. O compartilhamento de automóveis (ou a facilitação do aluguel por hora, caso do Zazcar) está apenas começando no Brasil. Imagine o dia em que não só você pode alugar um carro por pequenos períodos, mas sequer precisará dirigi-lo, como está sendo testado na Europa? Em uma combinação de táxi, piloto automático e aluguel de automóveis, seria como um transporte público individualizado.

Além da mobilidade, o modelo de acesso também poderia servir para diversas outras políticas públicas: ampliação do uso de energia solar, compostagem de lixo, habitação, fomento de pólos econômicos e inclusão digital.

 

Ponto-a-ponto

Caçarola de alho poró, castanhas e passas. Crédito: Katrin Morenz @Flickr

Já o modelo ponto-a-ponto de consumo colaborativo está muito próximo do crowdsourcing, isto é, da produção colaborativa. De fato, neste modelo a produção e o consumo se confundem – quem está produzindo hoje pode ser o consumidor amanhã. Por exemplo o Casserole Club (ou “Clube da Caçarola”), que une pessoas que gostam de cozinhar, com aqueles que já não podem fazê-lo. Similarmente, o Camden Shares permite que pessoas façam parte de um “banco de tempo”,  e dentro deste possam trocar uma aula de dança por um ingresso para uma peça, um espaço para reuniões pelo desenho de uma página web, ou qualquer outra combinação que seus membros achem justa. É uma versão sofisticada do bom e velho escambo.

E o ponto-a-ponto não significa que somente indivíduos podem participar e muito menos que não haja transações financeiras envolvidas. A empresa britânica Park at My House (“Estacione na minha casa”) permite que pessoas e organizações ofereçam espaço disponível nas suas propriedades para estacionamento. Os mantenedores de uma igreja, por exemplo, podem oferecer o seu estacionamento, que normalmente ficaria ocioso durante o horário comercial, e transformá-lo em uma fonte de receita.

Outro caso interessante é o do Zopa, também do Reino Unido, que se propõe a intermediar operações de empréstimos entre indivíduos. Os juros neste caso são menores que aqueles cobrados por bancos, o que é vantajoso para quem toma dinheiro. Porém são mais altos que o rendimento da poupança, o que atrai o interesse de quem empresta. Todas as operações são cobertas por um seguro, e o Zopa se financia através de uma taxa de administração. Esse não poderia ser um modelo interessante para o microcrédito no Brasil?

Observe que, apesar do setor público não estar oferecendo diretamente estes serviços, todos estes casos apresentam soluções para problemas com os quais a esfera pública tem que lidar: assistência social, incentivo ao empreendedorismo, mobilidade, acesso a crédito.

 

O furo, ao invés da furadeira

Repare bem que a ideia do consumo colaborativo não é um “comunismo disfarçado”. Ninguém está sendo incentivado a abrir mão da sua propriedade privada em prol do bem comum (apesar de que, se isso acontecesse não seria de todo mal…). O importante é que, muitas vezes, não ser dono de alguma coisa é de fato mais proveitoso, tanto do ponto de vista econômico, quanto pessoal. Por outro lado, pode ser para alguns a oportunidade de viabilizar uma compra (como uma super furadeira high tech), ampliando seus benefícios financeiros.

Não é uma ideia nova, ao contrário, é tão antiga quanto o escambo, mas o seu renascimento traz possibilidades brilhantes para o setor público.